Thursday, 27 January 2011

Um desabafo por Portugal

O que se passa com Portugal? É uma pergunta que me faço constantemente. O que é este desinteresse pelo colectivo misturado com uma preocupação constante por este mesmo colectivo? Como é que este paradoxo subsiste?


Costuma dizer-se que o Português é pessimista, que o português é invejoso, que o português é isto ou aquilo. Mas o português também pode ser o conquistador, o inovador, o primeiro globalizador, etc...O português é que se define mas, neste momento, parece não saber definir-se.


Uma comunidade precisa de se unir em torno de ideais para se identificar enquanto tal. Portugal não segue ideais específicos. Segue os seus próprios, individualmente, comparando-se aos outros com base em pequenas ninharias.


O português de hoje é um ser pobre culturalmente. Vive de uma história falhada, de um tempo que, na verdade, nunca existiu. O português de hoje sobrevive com base naquilo que quer acreditar mas fá-lo sózinho e essa solidão atingiu um patamar crónico.


Uma coisa é certa, o português está aborrecido com o seu país, com os seus (auto-intitulados) pseudo-líderes, não se revê na condução do seu país porque, na verdade, não consegue identificar aquilo que é o seu país.


O jovem português perdeu identidade. Está medíocre. Nem sequer se compara com o melhor que há no mundo, apenas o imita. Aqueles que querem estar na dinâmica global emigram. Vão para Londres, São Paulo, Nova Iorque...não ficam é neste pequeno país que se perde a si mesmo e se canibaliza em torno de uma crise existencial.


Portugal está doente. Não está com febre nem com uma doença terminal. Está deprimido. Portugal quer saír da depressão mas apenas recorre a artefactos paliativos, estranhos a si mesmo, para saír da sua angústia. A cura de Portugal encontra-se nas dez milhões de almas que o habitam. Encontra-se nas vozes que insistem em silenciar-se por não conseguirem ecoar em conversas.


Portugal tem laivos de saúde. Existem empresas de ponta, existem mentes criativas que por aí se deambulam. Existem líderes demasiado desaproveitados. Nenhuns se falam. Quando se cruzam, sentem-se impotentes então continuam o seu caminho solitário.


O pior problema de Portugal é a vergonha. A vergonha de sermos pequenos. A vergonha de sermos desinteressantes. A vergonha de se ser bom. A vergonha de se ser competente, rico, líder ou, simplesmente, feliz.


Nada se imprime na sociedade portuguesa. Poderia acontecer um cataclismo que Portugal acordaria como se nada se tivesse passado. Voltaria tudo para as filas de trânsito refilar. Voltaria tudo para os cafés comentar a bola, os políticos e os outros.


O que falta ao português para renascer enquanto Português? Está na altura de fazer coisas que realmente nos exponham. Vale a pena envergonharmo-nos de coisas que tentamos fazer...não daquilo que já somos.


Ouve-se Fado como nunca se ouviu. Porreiro. Eu gosto de Fado mas confesso que tem de ser em doses curtas e intensas. Não é o Fado que me eleva. O Fado traz-me de volta à Portugalidade adormecida e isso pode saber bem.


Ouço os Deolinda e gosto. Sinto Portugal a renascer. O futuro passa por essa fusão: desenvergonhada e descomplexada.

Quero ir ao café e ouvir: Bom dia! Está tudo bem? Está!.


“Vai-se andando”...isso é sofrer calado!


“Cá se vai”...então ponha-se a andar para ver se lá vai!


O que se passa, então, com este portugal neurótico?


Eu não sou um pessimista. Pelo contrário, sou um constante...normal. Sou normal. Acredito que todos temos direito ao sucesso pessoal, acredito que temos de nos unir em torno de projectos conjuntos enquanto comunidade, acredito que é possível construírmos um futuro melhor, basta pensar nele com estrutura, acredito que em Portugal há gente maravilhosa, de gabarito global. Enfim...acredito e por isso sei que é possível.


Porque é que acredito? Porque sei o que é difícil construir-se algo mas sei que é possível. Basta-me saber que é possível para acreditar.


Dito isto, é só uma questão de focar naquilo que importa bolas!

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